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Dois gols e choro: conheça Victor Gabriel, decisivo na virada do Inter sobre o Juventude
Zagueiro de 20 anos precisou superar adversidades na infância e também algumas reprovações no futebol até virar titular na defesa colorada neste início de ano
GloboEsporte.com / Tomás Hammes
A dedicação e seriedade que apresenta desde garoto sustentam a ascensão de Victor Gabriel no Inter. O zagueiro aproveitou a brecha ao lado de Vitão, se firmou entre os titulares e chegou ao auge na temporada ao comandar a virada colorada por 3 a 1 sobre o Juventude na tarde deste sábado, no Beira-Rio, pela 6ª rodada do Brasileirão.
O defensor de 20 anos voltou recentemente de lesão muscular e marcou dois gols praticamente iguais no clássico gaúcho. O Juventude saiu na frente logo aos três minutos. Aos 17 e aos 38, Alan Patrick cobrou escanteio do lado esquerdo diretamente na cabeça do garoto, que finalizou sem chance ao goleiro Gustavo. No segundo tempo, Borré faria o terceiro em outro lance semelhante.
O momento coroa a luta de um menino que saiu do interior do Maranhão e passou por adversidades até cativar o técnico Roger Machado.
— Estou feliz demais. Batalhamos muito para o Victor chegar até aí. Ele está realizando o sonho da vida — vibra Raimunda, a mãe de Victor Gabriel, em entrevista ao ge em fevereiro.
Infância sofrida
Natural de Tuntum, 370km distante de São Luís, capital do Maranhão, o defensor é mais um dos casos de que precisou enfrentar os mais distintos desafios até alcançar os holofotes no Beira-Rio. Mais novo de três filhos (é irmão de Maisa Kellen e Diana Meyre), Victor Gabriel, aos quatro anos, viu o pai, Ramon, se separar da mãe.
Raimunda, empregada doméstica e técnica de enfermagem, precisou tomar as rédeas para conseguir o sustento. Enquanto trabalhava, contava com a ajuda da mãe, Marlene, para cuidar dos netos.
O futuro zagueiro do Inter não dava trabalho na escola, mas já demonstrava a paixão pela bola, que ficava claro nas intermináveis partidas no meio da rua.
Ajuda nos primeiros passos
A qualidade também aparecia. Aos 10 anos, chamou atenção nos jogos escolares de Lisdean Souza e Denildo Santos. A dupla, que liderava escolinhas, ficou encantada pelo porte físico e técnico. Ocorre que o dinheiro era escasso.
— Denildo perguntou se eu não o chamaria para Bom de Bola aqui em Tuntum. O convidei para a escolinha, mas ele disse que a mãe não tinha condições de pagar os R$ 20 que cada aluno ajudava. O mandei vir treinar — diz Lisdean.
Apesar da qualidade com a perna esquerda, Victor Gabriel passou por uma lapidação nos fundamentos. O trabalho surtiu efeito e contou com a ajuda de Antonio Goveia, empresário que está com o zagueiro desde os 12 anos e entrou em cena com dinheiro, chuteira e lanche.
— Ele era muito grande para a idade, mas técnico. Apesar das dificuldades, nunca desviou. Sempre teve foco — valoriza o representante.
Reprovado no Palmeiras
O garoto avançava, e o trio resolveu enviá-lo para um teste no Palmeiras. Permaneceu três semanas, mas acabou reprovado. Lisdean ainda ficaria sem o projeto e a solução foi levar Victor ao Atlético Maranhense, na cidade vizinha. Nos dois sentidos.
Confiantes na qualidade da promessa, os mentores conseguiram um novo teste. Desta vez em Goiás. Entretanto, dois contratempos surgiram: a dúvida se valeria a pena seguir na luta para virar jogador e uma apendicite.
— Na metade do caminho, disse que não queria mais. Fomos buscá-lo em Barra do Corda (85 km de Tuntum) à meia-noite. Três dias depois, o Victor começou a sentir dor e foi às pressas ao hospital — recorda Lisdean.
Após a recuperação, o defensor ouviu de Goveia sobre a possibilidade de atuar em uma escolinha em Imperatriz, a 400 km de Tuntum. Um avaliador do Sport o observou e, aos 14 anos, o lateral-esquerdo se aventurava em Recife.
Ascensão e contestação no Sport
No Leão, brilhou pelas categorias de base. Aos 16 anos, estreou no profissional do Sport. No entanto, acabou marcado por uma atuação na derrota por 2 a 1 para o Corinthians, em Itaquera, pelo Brasileirão.
— Ele teve uma carreira meteórica no Sport, mas no jogo contra o Corinthians foi substituído no intervalo e perdeu espaço — comenta Goveia.
Mudança de posição no Inter
O desempenho o fez oscilar entre o profissional e a base, até por ter mais características defensivas e não um lateral que se destacasse pelo apoio. A perda de espaço culminou no Sport abrir conversas para emprestá-lo ao Flamengo de Arco Verde.
Foi quando Leandro Lima entrou em cena. Em razão do bom trânsito no Inter (já tinha Ricardo Mathias no clube), o outro representante de Victor Gabriel conversou com o então executivo da base, Jorge Andrade, para que desembarcasse em Porto Alegre.
Chegou ainda como lateral-esquerdo, mas revelou que já tinha atuado na zaga ao então técnico do sub-20, Pablo Fernandez, hoje auxiliar de Roger.
O comandante do profissional observou Victor Gabriel e o aprovou pelo potencial apresentado na posição. Só que foi preciso ajustar detalhes para que prosperasse como zagueiro.
O defensor então começou a trabalhar com Vinícius, que faz parte do PIT (Programa Individual de Treinamentos), projeto da base do Inter que busca aprimorar as virtudes dos garotos. Assim como Victor Gabriel, o ex-jogador também começou na lateral esquerda até se transformar em zagueiro e o passou lições de como se portar.
— O Victor chegou com muita vontade de vencer. Me identifiquei muito com ele. Tinha força, bom passe, bola aérea. Conversei sobre isso, que é preciso ser firme no desarme, ter bom posicionamento e bola aérea. Foram alguns toques que eu dei — revela Vinicius.
Será comprado?
Para ficar com Victor Gabriel definitivamente, o Inter precisa pagar R$ 2 milhões ao Sport por 50% dos direitos econômicos. Há dispositivos que aumentam os vencimentos do defensor e, caso surja uma oferta na janela do meio do ano, os gaúchos têm a possibilidade de cobrir.
O que, apesar da delicada situação financeira atravessada no Beira-Rio, caminha para ocorrer. Porém, no momento o clube somente renovou o empréstimo, que terminaria no fim do ano.
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